quinta-feira, 24 de novembro de 2016

ENCRUZILHADA

O Carretas era aquilo a que se pode chamar de Boa Gente. Não conseguia formar família, mas não lhe faltavam atributos. No montado, no olival ou no pomar, não tinha rival. Era bom a tirar cortiça, mestre na esgalha e um cientista em qualquer tipo de poda. Gostava de ensinar e muitos novatos eram seus aprendizes.
Mas não há bela sem senão, e o ponto fraco do Carretas era o vinho. Homem bem disposto, aceitava a sua sina como coisa do destino. Costumava dizer que o vinho tinha as costas largas, e até pagava as favas dos bagaços que ingeria em excesso. A quem o acusava de beber copo atrás de copo, respondia envergonhado que não conseguis beber dois ao mesmo tempo. Os amigos começaram a dizer-lhe que por esse caminho não arranjava mulher, pois nenhuma quereria dividir a sua vida com alguém que se entregava daquela forma à bebida.
O Carretas estava farto de ouvir os conselhos e as criticas dos amigos, e quase não ligava a isso, mas isso de não arranjar mulher, mexeu com ele. Pensou, pensou e tomou uma decisão: Ia mudar de vida, e para isso ninguém melhor que o Benjamim Escarcéu.
O Escarcéu era assim uma espécie de feiticeiro da tribo. Entre benzeduras, cobranto, mau olhado, fazer e desfazer namoros, e até números da sorte grande, eram-lhe atribuídos verdadeiros milagres.
Confrontado com o problema do Carretas, deu de barato a resolução do problema, desde que este pagasse e cumprisse rigorosamente os rituais a que teria de submeter-se.
Tudo passava por um cerimonial a acontecer numa encruzilhada à meia noite. Teve o Carretas de arranjar quatro patas de galinha pedrês, quatro olhos de rã , quatro penas de coruja velha e um garrafão meio de vinho tinto. A distribuição dos artefactos pelas ramificações da encruzilhada foi feita pelo Escarcéu ao som de uma lenga-lenga que pretensamente seria uma oração. Ajoelhou-se o Carretas a meio da encruzilhada, enquanto o Benjamim Escarcéu o contemplava com um belo par de carolos no totiço, provavelmente para afastar os vapores do álcool. Mesmo parecendo um contra censo, foi ainda o Carretas borrifado com o meio garrafão de tinto. Não achou graça à posologia da medicação, o Carretas, mas se era para se ver livre do vicio, pois que assim fosse.
O Escarcéu mandou o Carretas em paz, não sem antes lhe dizer para não deixar de beber de repente, e que teria de reduzir o consumo a pouco e pouco. Tomou disso boa nota o Carretas, e pagou os 50 escudos combinados.
O Carretas levantou-se cedo e foi à vila. Maquinalmente chegou-se á porta da tasca do Candeias. Levou em conta a estratégia de ir reduzindo o consumo do álcool. Chegou-se ao balcão e pediu três copos de vinho que bebeu de seguida. Saiu para a rua, cumprimentou amigos, e respirou fundo,estava confiante no resultado da sua empreitada. Voltou ao balcão, e fiel ao seu propósito, pediu dois copos de vinho que rapidamente desapareceram. Voltou à rua, cumprimentou mais amigos que iam e vinham nos seus afazeres. Voltou ao balcão e pediu um único copo de vinho. Bebeu e saiu desconfiado. Algo não estava a correr como esperava. Afinal quanto menos bebia, mais bêbado estava. Fora enganado. Maldito charlatão aquele Escarcéu! Lá se fora o sonho de merecer a atenção feminina. Ah, mas isto não ficava assim ! Um verdadeiro escarcéu faria ele se o Escarcéu não lhe devolvesse os 50 paus. e vá lá ele não exigir a devolução do meio garrafão de tinto, já estava com sorte. Pegou na pedaleira e lá foi à quinta do Benjamim Escarcéu, que desta vez falhara na sua fama de benzedor predestinado ao sucesso.

Aníbal Lopes



sábado, 19 de novembro de 2016

COISAS DO PIRILAU

O meu amigo e conterrâneo Prates Miguel, Escritor, Poeta e ilustre Advogado, tem o condão de chegar a documentos (ou eles chegam até ele) verdadeiramente surpreendentes. Não só pelos termos e pelo tempo, como também pela aplicação ao nosso tempo que nos vem logo à ideia.
Com a devida vénia aqui transcrevo esse documento, bem como o seu parecer final, visto à luz deste tempo.
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COISAS DO PIRILAU -  Prates Miguel
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À minha caixa de correio electrónico chegou e-meil que transcreve sentença proferida em 15/10/1883 pelo Juiz de Direito de Vila de Porto da Folha, província de Sergipe e recolhida no Arquivo Histórico de Alagoas – Brasil, do seguinte teor:
“(…) quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte, já perto della, o cabra Manoel Duda sahiu de supetão de em uma moita de mato e fez proposta à dita mulher, por quem queria para coisa que se não pode trazer a lume, e como ella se recuzasse, o dito cabra abrafolou-se della, deitou-a ao chão, deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará.
Elle não conseguiu matrimónio porque ella gritou e veio em amparo della Nocreto Corrêa e Norberto Barbosa, que prenderam o cujo em flagrante.
Considero (…) e condeno o cabra Manoel Duda (…) a ser capado, capadura que deverá ser feita a macete. A execução desta peça deverá ser feita na cadeia desta villa. Nomeio carrasco o carcereiro. Cumpra-se e apregue-se editais nos lugares públicos”.
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Mais o remetente se questiona acerca do tratamento deste caso num tribunal português actual. Ora, salvo o devido respeito por diferente entendimento – que a doutrina e a jurisprudência nunca são unânimes – a decisão seria assim:
Porque o mestiço Manoel Duda teria cometido um crime de coacção sexual na forma tentada (arts. 163 e 23 nº 2 do Código Penal ) haveria de ser condenado por juiz benévolo, no mínimo, à pena de um ano de prisão, eventualmente suspensa. Por seu turno, o juiz e o carcereiro do séc XIX por ofensa grave à integridade física do corpo de outra pessoa, privando-a de importante órgão ou membro e tirando-lhe a capacidade de procriação, estariam incursos em co-autoria moral e material, respectivamente, num delito previsto e punido pelo art. 144 do mesmo diploma legal e, pelo baixo, passariam dois anos a ver o sol aos quadradinhos.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

EU AMO ESTE RIO

São não sei quantas da tarde, deste dia do meado do mês, em pleno inicio invernal. Percorro as margens do Raia num sitio de pouca água. Ela, a água, ficou retida logo ali, pela imensa parede de betão que se alarga de encosta a encosta, e encimada pela estrada que me leva ao local idílico onde me encontro. Mas a água escapa-se propositadamente de ambos os lados da parede, através de enormes canais. Esses canais são como veias que irrigam de vida a grande planície que se estende até quase ao mar. Pelo caminho encontram outros canais, quais veias com as mesmas funções e que juntos formam uma família que fervilha de vida, transformando a terra seca em campos de fertilidade.
Por esta altura, pouca água corre pelos canais, mas a seu devido tempo, correrá a canal cheio. Este rio, que outros chamam de Ribeira, é um manancial de vida.
Saltito entre os enormes pedregulhos que se espalham pelo leito do rio, agora quase nu de água, mas bem vestido na sua orla rodeada de bosques de salgueiral e emaranhados de silvado. Uma lontra esconde-se rapidamente, e há passarada por todos os lados que chilreiam num concerto desordenado e insistente, como se fora chegada a hora do recolher à segurança do emaranhado do bosque. Sou surpreendido por um insistente zzzzzzzzzzzz. Reparo que são abelhas que esvoaçam por entre as brancas flores de um enorme medronheiro. Curiosamente o medronheiro tem também uma abundante quantidade de frutos praticamente maduros.. Fico fascinado pelo facto de a mesma árvore apresentar de forma tão clara, dois ciclos de vida em simultâneo.
As abelhas não parecem importunar-se com a minha presença, e dividem comigo o manjar que a natureza nos oferece através daquele medronheiro. Elas ficam com o pólen e eu com os medronhos.
Mas elas ficam e eu vou. Mas não sem antes contemplar de novo a beleza do local, onde os sons e odores da natureza se complementam na perfeição. Aqui e ali, alguns temporões malquereres brancos e amarelos, parecem ser o prenuncio de uma primavera que ainda vem longe.
O respeito quase religioso que tenho pela natureza, faz com que não me sinta ali um elemento estranho, mas antes alguém que sente o lugar como parte integrante da sua própria natureza.
Eu amo este Rio, a quem os outros chamam de Ribeira.


Aníbal Lopes

TEXAS JACK

Texas Jack era o mais rápido no gatilho, não perdia uma luta a murro e ficavam sempre com a mulher mais bonita do Povoado. Era justo e valente, e estava sempre do lado dos mais fracos.
Hoje venho falar-vos do dia em que salvei a vida a Texas Jack;
Parecia um Domingo igual a tantos outros, mas na verdade não era nada disso, porque nesse Domingo, o Salão Paroquial passava um filme com o meu herói favorito: Texas Jack.
Antes da hora, enquanto os outros rapazes iam lá para cima, comprar amendoins e batatas fritas ao Sr. António, correr pelos corredores, espreitar a lua reflectida nas águas da Barragem e as lamparinas do Cemitério, a quem, talvez um pouco desrespeitosamente, chamavam “boate caveira”, já eu estava instalado na Plateia, ansioso pela chegada do meu herói.
Recordo que nesta grande aventura, Texas Jack e os seus Vaqueiros, conduziam uma enorme manada de rezes, desde o Mississípi até Montana, rodeando as Montanhas Rochosas.
A certa altura, surge Jerry West e o seu bando de bandoleiros, que tentam apoderar-se de parte da manada. Mas Texas Jack e os seus bravos Vaqueiros reagem de imediato e trava-se enorme batalha. Claro que para Texas Jack, cada tiro era cada melro, mas a batalha estava difícil. De repente, pelas costas de Texas Jack, surge Jerry West, o perigoso pistoleiro a soldo do mal. Texas não se apercebe e a sua situação é perigosíssima. West prepara-se para disparar à traição. O meu coração quase que me salta do peito, e reajo instintivamente gritando:
-- Cuidado!! Atrás de ti!!
Texas Jack voltou-se que nem um raio e o seu colt 45 surge nas suas mãos como um relâmpago, de onde sai uma chama alaranjada na direcção de West. Este recebe o chumbo mortífero, sem perceber como tinha sido possível tanta rapidez.
Tanto à minha frente, como atrás todos reclamaram, mandando-me calar. O Sr. Artur veio ver o que se passava, e até o Padre Pereira me perguntou se eu estava parvo. Durante mais de uma semana, todos me gozavam, e eu já nem os podia ouvir.
Mas ninguém me tirava da cabeça, que tinha sido o meu grito que salvara a vida de Texas Jack.


Aníbal Lopes

terça-feira, 8 de novembro de 2016

MENSAGEM DO OUTRO LADO DA VIDA

Como quase todos os dias, Ramiro cumpria o que se tornara um ritual quase religioso, e dirigiu-se para o Cemitério de Morabenta. Zyra, a sua querida e amada Zyra, tinha falecido três anos antes, num trágico acidente automóvel. Desde então Ramiro assumira a morte da sua amada como sendo a sua própria morte. Vivia para a sua memória e limitava-se a sobreviver. Caminhava apressado para o Cemitério com a convicção de quem sabe que Zyra já estranha a sua demora.
Ramiro era querido em Morabenta, terra que o vira nascer e conhecia bem a sua dor. Ía recebendo os cumprimentos dos transeuntes, mas ninguém perguntava onde ia.
Naquele entardecer do final de Novembro, estava frio e ameaçava chover. Já perto do Cemitério, arrependeu-se de não trazer guarda chuva. Ao contrário do habitual àquela hora, naquele dia o Cemitério não estava vazio. Naquela pedra junto ao primeiro jazigo e que sempre ali estivera, estava sentada uma jovem muito bonita. Ramiro nunca a tinha visto antes e não teria mais de vinte anos. Envergava um estranho vestido de manga curta que mais lhe lembrou uma camisa de dormir. Cumprimentou-a mas ela não respondeu. Olhou fixamente para ele como se o conhecesse. Um olhar tranquilo e sereno. Ramiro achou que ela tinha de ter frio, tanto mais que aquele vestido singelo não parecia proteger lá grande coisa. Perguntou se precisava de ajuda, mas não obteve resposta. Ramiro despiu o seu blusão e pô-lo pelas costas da moça bonita. Ela não fez qualquer gesto. Disse-lhe que ia visitar uma campa ali perto, e se quisesse ir embora, poderia deixar o blusão ali mesmo.
Ramiro sentou-se na campa da sua amada Zyra. Falou com ela, rezou e esqueceu a moça bonita. Lembrou-se dela quando passou junto da pedra e reparou que ela não estava nem tinha deixado o blusão. Mas estava escrito que aquele encontro tinha mais para contar.



Aquele era mais um dia em que Ramiro fez exatamente o que sempre fazia. Caminhou a passo marcado em direção ao Cemitério de Morabenta, ao encontro da sua amada Zyra. Entrou quase sem ver onde punha os pés. Conhecia cada degrau, cada declive, cada espaço entre campas quase sem olhar. Mas nesse dia no espírito de Ramiro seria inundado de dúvidas difíceis de explicar.
Ramiro logo que chegou junto da campa da sua amada, deu de caras com o blusão que emprestara á moça bonita que encontrara sentada na pedra junto ao primeiro jazigo. Seguramente ela descobrira onde ele sempre se dirigia, e deixou ali o Blusão, na certeza que ele o veria. Fazia sentido.
Ramiro dirigiu-se à campa ao lado da da sua amada Zyra, para recolher o blusão, mas o que viu deixou-o sem pinga de sangue: A fotografia que estava na campa, era a da moça bonita, e até o vestido era o mesmo. Aquilo não fazia qualquer sentido, e como se o seu espírito não estivesse confuso bastante, reparou que a data da morte da menina da foto, era de quase oitenta anos antes. De facto o mármore daquela campa estava bastante negro, com evidentes sinais de abandono e antiguidade.
Ramiro sempre duvidara de que houvesse vida para alem da morte. De acordo com as suas convicções, a vida física é tudo o que existe. Nunca tivera inquietações metafisicas a cerca da vida etérea, e tudo o que agora o confrontava não o deixava sequer pensar um pouco. Sem saber o que fazer ou o que pensar, acabou por rezar um pouco, não porque achasse que isso adiantava alguma coisa, mas por uma reação instintiva. Saiu apressado do local, mal se despedindo da sua amada.
Ramiro pensou, pensou, e sem chegar a qualquer conclusão, resolveu não contar nada a ninguém. Não lhe apetecia passar por louco, mas sabia que nada do que lhe estava a acontecer era definitivo.


A pouco e pouco Ramiro foi aceitando o mistério como isso mesmo. Não lhe apetecia ocupar mais o seu espírito com algo que parecia não ter explicação.
Naquele dia fazia anos que começara a namorar a sua querida Zyra. Ramiro fez-se acompanhar de um enorme ramo de cravos brancos, a flor preferida da sua amada. Tinha a certeza que lá no lugar etéreo onde se encontrava, ia ficar encantada com a beleza das suas flores queridas. Sentiu-se contente e apressou o passo. Tinha pressa de chegar junto da sua Zyra.
Entro no Cemitério e o mundo desabou sobre ele: Na mesma pedra, a moça bonita a quem emprestara o blusão, e cuja foto estava na campa antiga, lá estava sentada, olhando para ele com o mesmo olhar tranquilo e sereno. Ramiro achava que ela o olhava como se o conhecesse, quase como um amigo que se espera. Ramiro não teve qualquer receio, e aproximou-se dizendo-lhe que ela tinha muito que lhe explicar. O que fazia ali, o que tinha a ver com a foto da campa ao lado da sua amada, e que tinha perto de oitenta anos, e acima de tudo o que queria dele. Mas ela simplesmente não respondeu. Mas olhava-o insistentemente, e Ramiro achava que havia carinho nesse olhar. Sem saber mais o que fazer, aquele impasse de nada servia. Ramiro aproximou-se da moça bonita, retirou um dos cravos brancos do ramo e estendeu-o à moça bonita. Finalmente ela teve uma reação, estendei ligeiramente o braço e aceitou a flor. Ramiro estremeceu; Tinha a certeza que tinha tocado a mão da moça bonita, mas não sentiu o seu contacto. Foi como se a sua mão não estivesse lá. Ramiro achou que não havia nada a fazer. Despediu-se dela com um aceno não correspondido, e encaminhou-se para a campa da sua amada. Mal chegou junto dela, viu de imediato um cravo branco em cima da campa da sua Zyra. Voltou para trás a correr. A moça bonita já lá não estava, mas aquele cravo só podia ser o que lhe oferecera. Mas porque o deixou na campa de Zyra e não na sua? O que tinha a sua amada a ver com tudo o que lhe estava a acontecer?. Haveria alguma ligação entre elas? Mas que relação podem ter duas pessoas, ambas falecidas e separadas no tempo por oitenta anos?
Ramiro não encontrava respostas para nenhuma das suas dúvidas, mas desta vez esta disposto a ir à procura de respostas. Se as houvesse, ele havia de lá chegar.




Ramiro sempre associara o espiritismo a superstições, cartomancia, cristais, búzios e até bruxaria, mas essa espécie de preconceito era agora águas passadas. Quem vive o que ele viveu, acredita em tudo, por mais inverossímil que pareça.
Ramiro percorreu todos os caminhos do misticismo, desde a leitura da mão até ás mais profundas manifestações do oculto. Nenhum deles lhe trouxe qualquer resposta que ele conseguisse aceitar. A decisão de participar numa sessão espirita, apresentava-se como a ultima esperança para acalmar o mar de dúvidas em que vivia.
A sala era grande, tendo no meio uma mesa oval de dimensões consideráveis. Todos os lugares estavam ocupados, e Ramiro contou toda a sua história de acontecimentos impensáveis. Estranhamente ninguém se mostrou surpreendido, parecendo até que já teriam ouvido outras iguais.
Disseram-lhe que sim, que era possível ele falar com a moça bonita do cemitério, mas apenas se isso fizesse parte da missão que ela tinha. Ramiro perguntou porque não falara a moça bonita com ele. Responderam-lhe que isso não lhe cabia questionar, mas apenas aceitar ou recusar o que lhe apresentava. Ramiro decidiu ir em frente. Ramiro ficou impressionado com o aparato daquele cerimonial. Ramiro não entendia nada mas também já se preocupava com isso. Ao redor daquela mesa, todos deram as mãos. A luz das lâmpadas começou a oscilar, como se balouçasse ao vento, mas como podem balouçar a luz elétrica? Ramiro decidiu que a partir dali nada o surpreenderia. Ele procurava respostas, e para as obter ele aceitava acreditar em tudo.
A mulher de meia idade que parecia dirigir aquela estranha reunião, disse que uma entidade vinda do alem, já estava presente. Ramiro achou que o epilogo que esperava esta próximo.
Ele estava pronto.



Chegara o que parecia ser a hora da verdade. A mulher que parecia ir servir de médiun, convidou a entidade recém chegada a manifestar-se. Quase de imediato a senhora começou a tremer e a ter convulsões, fechou os olhos e teve alguns espasmos e logo se tranquilizou. Do outro lado da mesa, outra mulher perguntou a quem acabara de chegar, o que fazia entre nós e o que pretendia. Da boca da mulher dos espasmos saiu uma voz afirmando que trazia uma mensagem. Ramiro tinha a certeza que era a voz da menina bonita do cemitério. Foi como se a tivesse reconhecido de imediato, mas como podia ter tal certeza, se nunca ouvira a sua voz? Não fazia sentido mas ele tinha a certeza. Só não entendia de onde vinha tal certeza. Perguntou se era com ele que queria falar, ao que ela respondeu que sim. Mas porquê tudo aquilo? Porque não falaram com ele no cemitério? Ela respondeu que não lhe era permitido, que ainda não tinha chegado a esse nível de evolução. Mas então o que queria dele? Ela trazia um pedido da sua amada Zyra. Mas então porque não veio ela? Ele teria dado tudo para voltar a vê-la. Respondeu-lhe que ela não poderia fazê-lo. A sua evolução estava no inicio. Mas que pedido era esse que parecia ser tão importante? Um pedido de perdão. Ela precisava desse perdão para seguir o trilho da luz. Mas que perdão era esse? Zyra sempre fora um exemplo. Huve um silêncio momentâneo que a Ramiro pareceu uma eternidade. A voz fez-se ouvir como lâminas cortantes: Um momento mau, uma fraqueza momentânea, um desconhecido, uma vez, o pecado da traição. Não!! Não podia ser. Ele não queria acreditar, mas a dor tomava conta do seu coração. A voz da moça bonita diz que a sua amada está em comunicação com ela, e pedelhe para acrescentar algo. Ramiro reage aos gritos. Não. Não quer ouvir mais nada. Sim, ele concedia esse perdão, mas que não lhe pedissem mais nada. O seu coração sangrava enquanto pela sua memória desfilavam três anos de memória, três anos de fidelidade, três anos de saudade. Agora tudo se desmoronava.
A senhora de meia idade disse que a entidade se fora.
..
Ramiro deambulava agora nas cercanias do cemitério. Não sabia se devia lá voltar. Aliás não sabia o que dizer aquela que tanto amara.. De repente Ramiro ouvira uma saudação. Era a sua jovem vizinha que sempre simpatizara com ele, sem que ele valoriza-se isso. De repente reparou que ela era bastante bonita e simpática. Resolveu caminhar um pouco com ela.
Não. Não iria ao cemitério.
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Aníbal Lopes










quarta-feira, 12 de outubro de 2016

AMAR MORA, É COMO UM BOLO DE ANIVERSÁRIO


De repente apeteceu-me dizer bem da nossa terra. Assim mesmo, só porque sim. Ou talvez porque faço anos, e muita gente se lembrou de mim, e isso é inspirador. Grande parte destes amigos são aqui da terra que me recebeu de braços abertos há quase quarenta anos, sem me pedir nada em troca, para alem de lealdade.
Pode parecer estranha esta forma de agradecer os vossos votos misturado com uma espécie de declaração de amor a este chão.
É bom; É muito bom ter amigos e amigas que se lembram de nós, mas também é bom pertencer a um lugar que nos aceitou como fazendo parte de si.
Hoje sem sombra ideológica, tal como a abrangência das minhas amizades,quero dizer que amo este povo e esta terra. Amo o sobe e desce das suas ruas, Amo os becos mal iluminados que guardam segredos e protegem os amantes, as travessas que vão dar a muitos sítios, as longas avenidas que uns gostam e outros não, as fontes onde todos bebem e as igrejas onde só alguns se confessam. Adoro os jardins floridos e o Raia que serpenteia pelo seu leito. Venero o horizonte longínquo, visto a partir do deposito velho, e as luzes das janelas que se vão apagando ao ritmo do aproximar da madrugada. Amo o sol e o ar que aqui se respira, e vejo nesta gente a minha gente.
Mora é uma bela Mulher que junta as suas curvas voluptuosas a algumas cicatrizes, mas até essa diversidade estética me apaixona.
Não tenho a sabedoria critica dos entendidos em padrões arquitetónicos adquiridos nos bancos universitários, ou nos manuais da especialidade, mas tenho a sensibilidade própria de quem vê as coisas com os olhos do coração.
Sinto-me feliz por gostar deste terra como ela é, antes de pensar como ela poderia ser. Quando conseguimos valorizar o que somos e o que temos, seguramente que os outros o farão também.
Aos amigos e amigas que hoje me deram o privilegio de não se esquecerem de mim, agradeço com o melhor que tenho: Venham visitar Mora e o tanto que ela tem para vos mostrar. Os amigos e amigas de mais perto, esses sabem bem do que falo.
A todos vós, não vos esquecerei. Um abraço do tamanho de Mora.

domingo, 1 de maio de 2016

SEM ROSTO NEM HONRA

Por muito que me custe, por vezes não consigo resistir à tentação de responder a quem de forma anónima questiona as minhas opiniões
Entendo que a opinião só é livre, só é credível e só acrescenta alguma coisa, se vier de quem esteja na disposição de responder por elas. Como pode alguém questionar a forma como penso, se não me dá a possibilidade de o olhar olhos nos olhos, saber quem é e reconhecer nele, ou não, o direito de me questionar?
Diz-me uma dessas sombras negras, que eu sou um Barão Vermelho. Barão Vermelho era uma figura da banda desenhada que representava um piloto nazi. Não conheço outro. Se isso pretende ter uma conotação política, não lhe reconheço razão. Sou um simples militante de base a quem nunca alguém concedeu qualquer privilégio. E isso afirmo-o publicamente e haja alguém que me prove o contrário.
Este resistente sem rosto, tem a alarvidade de comparar o seu anonimato cobarde com os resistentes anti fascistas que usavam a clandestinidade para se proteger do pidesco regime de então. Um atentado à memória de quem foi torturado, ou mesmo perdeu a vida numa luta heroica para que hoje nos possamos olhar olhos nos olhos.
Esta figura obscura faz crer que é alguém perseguido, provavelmente por responsáveis da Câmara, e que os seus interesses, sejam eles quais forem, podem ser prejudicados se manifestar de forma aberta, as suas opiniões. No entanto nunca clarificou essas insinuações.
Diz esta personagem fictícia que nunca vim a terreiro defender trabalhadores perseguidos na Câmara. Não assumo nem deixo que assumir se houve ou não trabalhadores perseguidos, mas sei ao que se refere, e saiba que fiz muito mais do que imagina. Se o meu contributo de nada valeu, foi porque a minha opinião não foi valorizada.
Sou uma pessoa aberta a todas as discussões, gosto de partilhar as minhas ideias, e sei que as dos outros são tão válidas como as minhas, e muitas vezes seguramente melhores. Mas só dou credito a pessoas reais. Pessoas como eu, com rosto, com nome e capazes de assumir a responsabilidade do que dizem, perante a sociedade organizada de que as PESSOAS fazem parte.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

SARAMAGO e eu


“ Porém, cada dia traz com sua pena sua esperança, ou será isto fraqueza do narrador, que de certo leu tais palavras ou as ouviu dizer e gostou delas, porque vindo com a pena a esperança, nem a pena se acaba nem a esperança é mais do que isso...”

José Saramago, in Levantados do Chão

Saramago não é o discurso mais fácil para mim. Não sou pessoa de fazer que percebo bem o que me deixa dúvidas, só porque ler Saramago dá assim uma espécie de aureola intelectual. Fazer de conta não é a minha praia. Mas como diz o povo, no melhor pano cai a nódoa, aqui visto ao contrario, tipo de repente fez-se luz. Este excerto de Saramago não me abriu novos horizontes mas trouxe-me algum alivio; Afinal, e salvo as devidas distâncias, não sou só eu que tenho momentos de fraqueza em relação à perda de esperança e falta de crer no futuro deste povo, mesmo levando em conta as distancias temporais. Também fiquei a saber que é aceitável (mesmo que seja uma fraqueza) que se use no que escrevemos, ideias, conceitos e palavras que lemos ou ouvimos a outros, e cuja identidade a nossa memória perdeu ou nunca conheceu.

Há ideias inspiradoras que se tornam património de todos, e que completam as nossas próprias ideias. Mas não podendo identificar os seus autores, como podemos usa-las sem parecer que estamos a fazer um uso indevido delas?. Devemos dizer que não são da nossa lavra, mesmo que o contexto onde estão inseridas seja nosso?

sábado, 9 de janeiro de 2016

MARCELO À RASCA


Afinal as “favas contadas” começam a levantar dúvidas. Confrontado com as várias fragilidades que os seus opositores lhe vão apresentado, Marcelo descobre que o contraditório é uma grande chatice. Bom mesmo eram as suas “conversas em família” onde ele” fazia a festa, atirava os foguetes e apanhava as canas”, sem que ninguém o contrariasse. O seu nervosismo é evidente e a sua pose estudada e ensaiada durante anos, já não tem a mesma “naturalidade”.
A mascara começa a escorregar, e sem a protecção de um sistema bem urdido e atuante, já tinha caído. Não será fácil, mas acredito que bem abanado, o palácio dos privilegias acabará mesmo por ruir.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

O VELHO DO QUADRO.


O VELHO DO QUADRO

Aquela galeria estava cheia de quadros; Castelos, pontes, barcos, bailarinas e até mulheres remi-nuas, entre outros de formas estranhas que eu não entendo. Mas um deles, meio escondido a um canto, representava um velho com evidentes sinais de sofrimento estampados no rosto. Reparei que ninguém reparava no quadro do velho sofrido. As pessoas comentavam e olhavam com ar entendido. Mas o velho sofrido, solitário, abandonado e encarcerado entre as ripas daquele quadro, apenas merecia indiferença e desinteresse. Pus-me então a pensar que talvez a velhice não seja arte que mereça a atenção daqueles intelectuais entendidos na ciência de representar através da pintura. Ou será alguma hipocrisia, egoísmo ou mesmo algum complexo de culpa que os obriga a desviar o olhar? Aquela gente tão plena de sabedoria sobre tela, não tem velhos na família? Ou simplesmente não pensam chegar a velhos?.
Na verdade, com todo este alheamento, com toda esta indiferença chega a parecer-me que eles não sabem que naquela galeria onde entraram como entendidos, eles apenas se movimentam como sonâmbulos, espantalhos a tentar afastar os seus próprios fantasmas, fazendo-se passar por algo que lhes dê a sensação de que estão vivos mas não velhos.

Aníbal Lopes

Jan/16