
A todos os amigos deste blog, desejo um novo ano pleno de realizações pessoais e familiares.
TERMO DE ABERTURA: Serve este Blog para nele depositar as minhas alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, glórias e frustrações. a que juntarei algumas opiniões, mas com fair-play, e sempre sem abdicar deste meu sentir de vermelha afeição. (Foto de José Caeiro)
E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitros de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
(José Carlos Ary dos Santos)
É conhecido, pelo menos no meu círculo de amigos, o amor que sinto pelos sítios e vivências da minha infância, e a saudade que me invade sempre que a sua memória ocupa o meu coração.
Muitos desses sítios estão hoje totalmente diferentes, ou mesmo desapareceram, mas na minha memória estão exactamente igual e no mesmo sítio.
Basta-me fechar os olhos para nadar “em pelica”no tanque da minha horta, beber água na fonte do Ti Zé do Moinho, que enchia a presa onde as mulheres lavavam a roupa, ou moldar barro no Forno do Telheiro.
Posso facilmente apanhar camarinhas na Terra Preta, Mirtilos (mortinhos) no Carvalhoso, medronhos no Vale da Areia, ou marmelos na horta do meu tio Manuel Galiza.
Se continuar de olhos fechados, posso ainda entrar na Azenha do meu Tio Artur do Moinho, depois de olhar extasiado a roda gigante movida pela água aprisionada na presa, e que faz mover as mós, que num movimento rotativo e continuo, transforma o trigo ou o milho em farinha, enquanto no ar, uma suave névoa branca vai-se mantendo suspensa, até cair suavemente sobre tudo à volta, como se fora uma fina camada de neve.
E que dizer das enormes pescarias feitas no Vale da Terra Preta? Enquanto a minha mãe e as minhas tias dispõem ou mondam o arroz, eu e o meu tio António, pouco mais velho que eu, atacamos o Vale munidos de um cesto de verga com casca. Um fica a “aparar” e o outro bate a pé descalço as margens do vale, empurrando bordalos, pardelhas e cágados contra o cesto, que no tempo certo é levantado cheio de lismos e espadanas, mas também o prémio para tão exímios pescadores: O tão desejado peixe, que apesar de pequeno, é aproveitado para a janta.
Desses tempos longínquos, lembro também dos serões de verão, passados em casa de vizinhos, ou simplesmente sentado no poial fronteiriço à minha casa, olhando as estrelas e a lua, que segundo rezava a história, representava um homem de forquilha na mão, a empurrar mato para dentro de um forno.
Ou então as noites frias de Dezembro, sentado no meu mocho à lareira, sempre de olho nos pingos que caíam dos enchidos pendurados nas varas, que curavam ao calor e ao fumo das estevas e tanganhos de esgalha de azinho, apanhados naqueles cabeços de onde vinham também as boletas que assava num pequeno espaço aberto entre as brasas, e que eu tanto gostava.
Também esperava ansiosamente pelo Domingo, em que vestindo as minhas melhores calças de cotim azul, ia para a venda do meu Tio Manuel Gabriel, que permitia que eu me sentasse do lado de dentro do balcão da taberna, por baixo do enorme rádio, onde ouvia os relatos dos jogos do Benfica.
Pode parecer-vos estranho ter tão presentes aqueles tempos difíceis, e mais ainda, que os recorde com tanta saudade, mas aqueles tempos correspondentes a épocas de grande isolamento, tornava a vida mais autentica, e eu sentia cada canto como fazendo parte do meu habitat natural, como se fizesse parte de mim e tudo aquilo me protegesse.
Eu acho que era feliz, e se há coisas que me assustam, é o risco de perder a memória.
(imagem docarmomesquita, com a devida vénia)
Tombando suavemente sobre o povoado, a noite envolve a rua deserta em total negritude.
Por debaixo de algumas portas, escapam-se alguns raios de luz, de momento a única coisa reveladora da existência de vida no meio da escuridão. Não tarda muito para que essa luz se extinga também.
O lugar adormece finalmente.
Um ruído abafado, denuncia a presença de movimento. Uma porta mal oleada, range ao entreabrir-se, e uma figura esguia entra rapidamente.
Nas suas costas, a porta volta a fechar-se.
Por detrás de uma janela, a mulher velha que sofre de insónias, faz o sinal da cruz.
Ao longe, ouve-se o uivar do lobo.
(imagem " Principalmente Poesia)
É conhecida a facilidade com que por vezes nos devotamos a certos ídolos, que na maioria das vezes se acaba por concluir que têm pés de barro.
Da mesma forma e com igual facilidade, consideramos quase como monstros, pessoas que mal conhecemos, mas de quem se diz “cobras e lagartos”, normalmente sem sequer sabermos porquê.
É de uma dessas pessoas que vou falar.
A história é longínqua de mais de quarenta anos, e foi-me contada por um amigo. É portanto, uma história em segunda mão, mas que vou contar como se fosse minha. Naturalmente que o nome aqui usado, é fictício.
O Veredas, era um velho barbudo, de aspecto descuidado e carapuça sempre enfiada na cabeça, e a quem nunca vira acompanhado de ninguém. Verdade se diga que ele próprio, não era fácil de ver, a não ser por quem se aproximasse do canavial que separava a sua horta, dos terrenos baldios onde a rapaziada costumava brincar. Só que essa aproximação, só por si, já era um perigo enorme, pois todos sabíamos que o Veredas era um velho mau e perigoso, capaz de fazer mal a uma criança indefesa. Não que nós alguma vez tivéssemos visto ou ouvido qualquer ameaça a quem quer que fosse, mas porque era o que todos diziam.
Perto do canavial, eram bem visíveis duas enormes figueiras, carregadas de figos maduros.
A fome era mais forte que o medo, e não havia Veredas à vista. Parecia certo que ele não estava na horta, e o canavial não era obstáculo para um rapagão de sete longos anos.
Não resisti à tentação, nem fiz muito por isso. Enquanto o diabo esfregou um olho, estava em cima da figueira que me pareceu ter os melhores figos.
Não sei quantos já comera, quando ouvi um ruído. Ao olhar para baixo, tive a clara visão do Inferno: O Veredas estava a olhar para mim. Fiquei de tal modo aterrorizado, e o meu medo devia ser tão visível que o próprio Veredas terá tido pena de mim. Olhou-me e falou sem parar:
---“ Escusas de estar a tremer que eu não te faço mal. Come à vontade e podes voltar sempre que tenhas fome. Mas quando acabares, quero as peles dos figos todas enterradas.”
O Veredas afastou-se rapidamente, e foi já a alguma distância que olhou para trás, e gritou:
---“…mas nunca tragas a cesta!!!”
O Veredas afastou-se definitivamente.
A minha pouca idade e o medo de que estava possuído, levou-me a fugir dali a sete pés, sem entender praticamente nada e sem enterrar as peles dos figos que comera.
Nunca mais esqueci o Veredas, e com o passar dos anos, fui entendendo cada uma das suas palavras, até concluir que o Veredas era um Homem bom, que por razões que só a ele respeitavam, escolhera ser solitário e afastar-se dos outros, que por maldade ou ignorância, não o respeitavam nem entendiam a sua forma de vida.